... sobre o contexto de produção da Mensagem
Os séculos ulteriores aos Os Lusíadas
foram difíceis para o nosso país. Portugal foi, gradualmente, perdendo o seu
Império e as suas riquezas. No século XIX, a situação agravou-se. Sofremos as
invasões napoleónicas, ficámos subjugados ao poderio inglês, o nosso atraso em
relação aos colossos da Europa imperialista era cada vez maior. No plano
interno, a hipocrisia de uma sociedade movida pela ganância, retratada em Os
Maias, de Eça de Queirós. O governo monárquico caiu em descrédito e com o Ultimatum inglês (1891) o orgulho
nacional humilhado. A Geração de
70 dava-se por vencida. Os feitos gloriosos de 300 anos antes
pareciam bem longe da realidade portuguesa do início do século XX.
É neste contexto sócio-histórico que Fernando
Pessoa escreve a Mensagem. Embora a sua grandeza como obra a torne
intemporal, a circunstância cronológica em que foi escrita aumenta a
importância do seu conteúdo. Com efeito, o elogio tecido por Pessoa à ambição
dos portugueses em partir à conquista de novos mundos constituirá como que uma
regeneração do orgulho português, que estava a passar por uma crise de
identidade. Daí a ênfase dada pelo poeta na recriação do mito, na
virtude de ser português. Pessoa eleva a insatisfação de alma como a maior
virtude dos conquistadores portugueses e assume que tem como pretensão mitificar
esse espírito português: “Desejo ser
um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da
Humanidade”.
A ideia de um livro com poemas de inspiração
nacional terá surgido durante a época sidonista (período de governação de
Sidónio Pais), em 1917-18.
A personificação desse mito é D. Sebastião. O
poeta considera-o um “louco”,
mas não na acepção negativa que lhe damos, antes com uma conotação, superior,
de alguém que é louco “porque quis
grandeza / Qual a sorte não dá”. Para Pessoa a loucura é exactamente
aquilo que dá ao homem a razão para existir, traduz-se na significância que só
alguns conseguem adquirir, sob pena de se tornarem meros seres irrelevantes,
caminhando comodamente para a morte: “Minha loucura, outros que me a tomem / Com o que nela ia. / Sem a
loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”.
Mas D. Sebastião não é um mero cadáver adiado. É o chefe dos bravos, o
arquétipo (modelo) do português ambicioso que quer conquistar novas terras para
engrandecer a Nação:
“Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
/ E erguendo como um nome, ato o pendão / Do Império”, lê-se em “A
Última Nau”, poema de Mensagem (2.ªparte - “Mar Português”).
(adaptado)
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