Tal como referi na aula, deixo-vos o poema "Prece" de Mensagem, brevemente comentado.
Senhor,
a noite veio e a alma é vil.
Tanta
foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos
hoje, no silêncio hostil,
O mar
universal e a saudade.
Mas
a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda
há vida ainda não é finda.
O frio
morto em cinzas a ocultou:
A mão
do vento pode erguê-la ainda.
Dá
o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com
que a chama do esforço se remoça,
E outra
vez conquistemos a Distância -
Do mar
ou outra, mas que seja nossa!
Mensagem, Parte II "Mar Portugês"
Poema que encerra a segunda parte da obra pessoana e em que se reflete sobre o presente à luz do passado: o passado foi a tormenta, a vontade, deixando como herança, "o mar universal e a saudade". O presente, por seu lado, é, como diz Camões, de "austera, apagada e vil tristeza" (Os Lusíadas, X, 145), Pessoa, evocando Deus, diz "Senhor,
a noite veio e a alma é vil". Mas na 2.ª quadra afirma que há lugar para a esperança: "Mas
a chama, que a vida em nós criou, / Se ainda há vida ainda não é finda". Estará, porventura, escondida nas cinzas, mas pode ser erguida pela mão do vento. Por isso, a prece: que Deus volte a querer dar o "sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia - ", capaz de nos reerguer, para que "outra vez conquistemos a Distância /Do mar ou outra, mas que seja nossa!"
Mensagem pretende que voltemos a ter fé em nós e voltemos a criar Obra que nos redima, em definitivo da "vil tristeza" que ensombrava já o tempo de Camões e que, em Os Lusíadas, dava sentido ao apelo final a D. Sedbastião para qued partisse, fosse grande e desse "matéria a nunca ouvido Canto".
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