sábado, 1 de março de 2014

Prece, Fernando Pessoa

Tal como referi na aula, deixo-vos o poema "Prece" de Mensagem, brevemente comentado.

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
 
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
 
Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa! 
Mensagem, Parte II "Mar Portugês"


Poema que encerra a segunda parte da obra pessoana e em que se reflete sobre o presente à luz do passado: o passado foi a tormenta, a vontade, deixando como herança, "o mar universal e a saudade". O presente, por seu lado, é, como diz Camões, de "austera, apagada e vil tristeza" (Os Lusíadas, X, 145),  Pessoa, evocando Deus, diz "Senhor, a noite veio e a alma é vil". Mas na 2.ª quadra afirma que há lugar para a esperança: "Mas a chama, que a vida em nós criou, / Se ainda há vida ainda não é finda". Estará, porventura, escondida nas cinzas, mas pode ser erguida pela mão do vento. Por isso, a prece: que Deus volte a querer dar o "sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia - ", capaz de nos reerguer, para que "outra vez conquistemos a Distância /Do mar ou outra, mas que seja nossa!"
Mensagem pretende que voltemos a ter fé em nós e voltemos a criar Obra que nos redima, em definitivo da "vil tristeza" que ensombrava já o tempo de Camões e que, em Os Lusíadas, dava sentido ao apelo final a D. Sedbastião para qued partisse, fosse grande e desse "matéria a nunca ouvido Canto".




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